Sozinhos Somos Inteiros #2



Já passa das 2h da manhã e ainda não consegui adormecer. Quando me deito, o fluxo de pensamentos continua a manter a sua velocidade alucinante. Tenho demasiada dificuldade em entrar no sono e parar de pensar por uns momentos. Mais uma vez aqui estou, como tantas outras vezes, a reflectir e estruturar aquilo que sinto. Creio que vou ter de voltar a fazer meditação na tentativa de abrandar e poder assim relaxar quando chega a noite.
Com este texto pretendo dar continuidade a uma outra publicação na qual abordei o mesmo tema (Sozinhos Somos Inteiros, 25 de Março de 2016).



Hoje disseram-me o seguinte: "És tudo aquilo que eu quero numa mulher e também aquilo que preciso!". Em tempos idos, dizerem-me algo assim seria uma linda declaração de amor pela qual me derreteria e ficaria lisonjeada. Hoje em dia, deixa-me a pensar e a matutar pelo facto da pessoa em causa ainda não ter percebido o seguinte:
"Eu Quero", primeira pessoa do singular do verbo querer no presente do indicativo, e que erradamente ou não, associo sempre a sentimento de posse. Faz-me lembrar uma ida às compras na qual vejo determinada peça e penso "quero esta para mim!".
Talvez nem seja dito com essa intenção, mas é assim que interpreto. Eu prezo muito a minha liberdade, independência e não lido bem com o sentimento de posse e de controlo. Gosto imenso de ter o meu espaço e não permito que o invadam (a não ser que sejam convidados para tal e, nesse caso, deixa de ser uma invasão). Não suporto dar justificações seja do local onde estou, com quem estou ou para onde vou. Se achar que devo dizer algo mais ou partilhar com o outro, fá-lo-ei de livre e espontânea vontade, mas não por obrigação. 
(No entanto, tenho plena consciência que vivemos numa sociedade hierárquica e que essa mesma hierarquia deve ser respeitada, em especial nos locais de trabalho. Considero esta situação como uma excepção, tenho um superior para o qual desempenho um trabalho e devo-lhe justificação se o mesmo foi ou não bem executado, problemas que surgiram, etc.) 
Numa relação de amizade, namoro, sinto-me controlada e encostada à parede quando me questionam sobre determinados assuntos. Por uma questão de respeito e se achar necessário digo para onde vou ou com quem vou, mas não me sinto na obrigação de o fazer. Não associem a minha necessidade de liberdade com libertinagem. Distingo-as muito bem uma da outra e tanto prezo a liberdade, como a responsabilidade, a fidelidade e a confiança numa relação. A meu ver estão todas no mesmo patamar, não há hierarquias, uma não está acima das outras. Vejo como fundamental cada um ter a sua independência e não andarem sempre atrás um do outro, tal qual um apêndice.

Quanto ao "precisar", tem muito que se lhe diga. Temos em nós tudo aquilo que necessitamos para sermos felizes, está tudo nas nossas mãos, as ferramentas estão disponíveis e ao nosso alcance basta descobri-las e saber usá-las a nosso favor. Não precisamos da pessoa X ou Y para nos sentirmos preenchidos ou completos. Não podemos colocar esse "fardo" nas mãos de outro. Imaginem que o relacionamento amoroso ou a amizade cai por terra como tantas vezes acontece. Nessa altura o nosso pequeno mundo iria desabar, a nossa razão de existir seria abalada porque necessitávamos da dita muleta para nos sentirmos bem. Primeiramente, temos de estar bem sozinhos, completos e preenchidos, mas isso não querer dizer que não desejemos partilhar os bons e maus momentos com outra pessoa, apenas deixa de ser algo fundamental para estarmos felizes.
Aquela expressão tantas vezes utilizada das metades da laranja que se completam, não é de todo a mais correcta. Sozinhos somos e devemos ser inteiros, duas laranjas (completas) que juntas contribuem para tornar a árvore mais frondosa e repleta de fruto. Não precisamos de "espremer" o outro em nome do amor ou da amizade. Uma relação verdadeira não é baseada no facto de sermos seres incompletos e que só outra pessoa nos vai fazer sentir completos. Somos seres únicos! Achar que vamos encontrar alguém idêntico a nós, como se algures na nossa jornada tivéssemos sido cortados ao meio e que, por essa razão, necessitamos de procurar pelo universo a outra parte que nos falta e que só ela nos fará feliz, uma vez que é a exacta metade, está tão, mas tão errada! Já reparam no quanto esta imagem das metades da laranja pode ser "perigosa" e vista como uma forma de exploração? Sim, exploração humana! Espremer-se mutuamente até não conseguir tirar mais do outro, chegando à conclusão que o amor acabou. Já não obtenho mais nada do outro, já não necessito dele, mas onde fica o amor no meio de tudo isto?! Viver esperando encontrar outra pessoa para nos completar é condenar-nos à infelicidade para sempre. Ninguém pode ter a responsabilidade de preencher vazios alheios.
Para finalizar, um fruto não irá dar sumo para sempre, enquanto o amor verdadeiro será eterno. (Podem chamar-me de sonhadora, eu sei que o sou!!)


Utópica ou não, esta é a minha forma de ver as relações. Se ambos respeitarem o espaço de cada um, sua individualidade, sem tentar impor, controlar ou moldar o outro a seu favor, têm tudo o que necessitam nas suas mãos. O problema surge quando a forma de ver um relacionamento não coincide, aí sempre existirá cobrança por uma das partes. Irrealista, eu? Até o posso ser aos olhos de outros, concordem ou não, só peço que respeitem a minha forma de pensar e viver. Até podem dizer: " assim vais terminar sozinha!". Não me importo, desde que termine feliz, realizada e preenchida. Desde que me orgulhe da pessoa em que me tornei e dos sonhos que conquistei, partirei feliz!

Beijos e abraços com ou sem muitos amassos! ;)

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2 comentários

  1. Bom texto.

    Penso de forma diversa em dois dos pontos levantados: respeito o individualismo de uma pessoa, acho que um dos valores cultuados pelo ocidente ao longo do tempo que permitiu o nosso desenvolvimento social, cultural e moral foi a observância ao âmbito privado de cada ser humano onde o mesmo tem a liberdade de, respeitando o próximo, agir com liberdade e autonomia, porém, da forma que você pôs, que temos tudo em mãos para sermos felizes, me pareceu mais generalizante do que a realidade pode ratificar (sua ideia está expressa de forma mais ampla do que se poderia aceitar caso o assunto tratado fosse estritamente relacionamentos humanos). As pessoas vêm ao mundo e já a partir desse momento fica demonstrado a total dependência que o ser humano tem em relação aos que estão próximos. Ao nascer, diferentemente de muitos animais, estamos desprovidos de equilíbrio, autonomia, acuidade visual, inteligência, consciência e outros atributos essenciais à manutenção da vida. Mesmo quando estamos crescidos, e já no auge de nossa independência, ainda somos dependentes de relações sociais e de toda uma cadeia de vínculos econômicos para satisfazermos nossas necessidades fisiológicas, sociais e mesmo de autorrealização. A possibilidade de o indivíduo desenvolver-se a ponto de ter autonomia emocional em face das demais pessoas apenas pode ser aventada após satisfeita toda uma hierarquia de demandas físicas e psicológicas para as quais o próximo é absolutamente essencial.

    Também tenho um pouco de dificuldades de encarar como relação implícita de posse a utilização de pronomes que aproximem de nós uma pessoa de nosso círculo de relacionamentos. A demonstração de dependência e submissão apenas ficaria minimante comprovada caso os nossos períodos de consciência e ataraxia ocupassem todo ou quase todos os momentos acordados, ou seja, teríamos que ser pessoas dotadas de racionalidade com frequência muito maior do que realmente ocorre conosco, pois as alternâncias de emoções e sentimentos são muito mais comuns ao longo de nossos dias do que os períodos de lucidez e aquietamento da mente (condição necessária à racionalização). Não consigo considerar que se uma pessoa fala a seu cônjuge 'meu amor', ali está documentada uma vontade subjacente de dominação, posse e submissão. Fosse tão absoluto e egoísta assim o significado da utilização pronominal, acho que nem sequer a mera expressão 'a minha vida' poderia ser empregada em nossa gramática, já que sobre o fenômeno da existência temos muito menos domínio e controle do que gostaríamos de admitir que temos.

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  2. Muito obrigado, minha querida. Fico extremamente feliz por isso e torço para que o experimentes logo que possas assim como tragas em breve uma review. Vais adorar :D

    Concordo plenamente com o que escreveste. Uma relação quer-se sólida, com base de confiança. A partir do momento em que deixam de ter vidas paralelas e passam a viver em função um do outro as coisas não resultam... :/

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    InstagramFacebook Oficial PageMiguel Gouveia / Blog Pieces Of Me :D

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