Confissões #1

domingo, maio 15, 2016

"Todos temos forças para além daquelas que julgamos ter. É, pois, quando estamos fracos que escolhemos ser fortes" (José Luís Nunes Martins)
Mar, Praia, Areia, Ondas... O cheiro a maresia, o barulho das ondas a baterem nos rochedos, a espuma que cada uma delas deixa na areia, sentir no corpo o sal do mar, observar a infinidade de cores, tamanhos e formas dos pequenos seixos dispersos por entre os grãos de areia. Sentir uma enorme paz, tranquilidade, serenidade...  Tantos outros sinónimos se poderiam juntar a estes e, no entanto, não seriam suficientes para descrever o que sinto quando permaneço junto ao mar.

É um dos locais onde toda a minha angústia, tristeza e problemas se desvanecem. Nenhum antidepressivo ou substância psicotrópica tem este efeito sobre mim. Nada se aproxima da harmonia, bem-estar e equilíbrio que o mar me transmite! Há alturas em que este banho de mar é o único balsamo que me consegue acalmar! A água tem este poder sobre mim! E hoje foi mais um desses dias em que tal sucedeu!

Por vezes, pensamos que determinada situação da nossa vida está mais do que resolvida. Que tal sentimento permanece guardado na gavetinha daquele armário empoeirado e colocado algures no meio do sotão juntamente com algumas tralhas que ficaram no passado. Pensamos que superamos e seguimos em frente com a vida e que aquele sentimento não irá mais abalar-nos. Assim pensamos...até ao momento em que algo sucede e  nos revela que ainda há algo por esquecer e arrumar. 

Quando recebi determinada noticia, estava num local público e mexeu de tal forma comigo que tive de abandonar o espaço. Senti-me tão perturbada e incomodada que precisei de desaparecer. Naquele instante só quis ir para o meu refúgio, para bem perto do mar onde pudesse banhar toda a tristeza que senti. Todo o trajecto de carro até à praia foi uma constante luta para não chorar. As lágrimas escorriam-me pelo rosto, tive de parar para as enxugar e fui tentando reprimi-las até chegar ao meu porto de abrigo. 

Lá, chorei copiosamente, como já não o fazia há muito tempo! Entrei naquela praia vestindo o papel de vítima: "Porquê eu? Porque razão levo mais um murro no estômago, mais um punhal cravado no peito? Porquê que mal ultrapasso um obstáculo surge outro?" Enfim... sentia raiva, enorme tristeza, angústia e desilusão. Conversei com o mar como quem conversa com uma amiga. Em voz alta e gesticulando coloquei para o exterior tudo o que estava preso em mim. Pedi às águas que levassem para bem longe tudo o que de menos bom sentia naquele instante. Que lavasse a minha alma e purificasse o meu coração, que me libertasse daquele sofrimento.

Assim foi! Depois de longos minutos sentada na areia, de caminhar junto ao mar, de orar e pedir ajuda para aliviar o meu coração e pensamento, as preces foram atendidas. As vestes que envergava quando lá cheguei, o "papel de vítima" que me consumia, aos poucos foram desvanecendo e deram lugar a um sentimento de paz indescritível! Ao sair daquele espaço tinha em mente a seguinte frase que surgiu enquanto olhava para o mar: "Que todos estes obstáculos sirvam para me tornar num ser humano mais forte, que me permitam crescer e evoluir enquanto pessoa." Nesse momento, tive a certeza que o sucedido fez (e faz) parte da minha aprendizagem e que realmente precisava desse abalo para resolver o que ainda estava pendente, para ter a certeza que o caminho não era de todo aquele que um dia tinha desejado e que, pelos vistos, ainda existia uma réstia de esperança lá no meu intimo. Se fosse totalmente indiferente não me teria abalado daquela forma, não me tinha transtornado ao ponto de querer sair do local onde me encontrava por não conseguir conter as lágrimas.

Há abalos necessários, este foi um deles! Há que ruir por completo para poder construir algo de novo com bases mais sólidas. Há que cair e bater no fundo para ter a certeza que acabou, não é mais por ali o meu caminho: "Esquece e segue em frente!".

Ao despedir-me do mar, olhando para trás prometi a mim mesma que ali deixava o problema. Não ia falar sobre ele a quem quer que fosse, nem iria escrever sobre o mesmo, não iria revelar o que me deixou naquele estado. Ficou ali e não vou mais pronunciar aquilo que ali libertei. Foi um ponto final, um virar de página, provavelmente o começo de um novo capítulo.

Com este desabafo quero partilhar convosco que, por vezes, pensamos ter uma situação perfeitamente resolvida, verbalizamos isso várias vezes sem medos ou dúvidas, mas no momento em que somos confrontados temos reacções que desmentem por completo tudo aquilo que pensávamos. Certamente, estivemos a enganar-nos com determinado discurso, com uma certeza exacerbada de que tudo estava sanado e que caiu por terra naquele preciso instante em que foi abalada.

Por último, todos nós temos aquele local especial em que "nos sentimos em casa", o tal porto de abrigo, refúgio que nos acalma e protege, que nos revigora e recarrega as baterias, dando aquele impulso e força extra para continuar a caminhada. O mar/praia desertos são esse meu casulo onde "hiberno" por momentos mais ou menos demorados e de onde saio aliviada. leve, como se tudo estivesse resolvido e terminado ali, naquele local, naquele instante. Há quem encontre a mesma tranquilidade ao lado de outra pessoa -  amigo, companheiro, familiar; no campo, no meio da floresta, de um jardim ou riacho. Eu encontro-a junto ao mar! Procurem esse vosso espaço/pessoa onde ou com quem possam aliviar o vosso "fardo" e torná-lo mais leve. Não é fraqueza, mas sim, sinal que somos humanos, que sentimos e experienciamos os extremos: a dor/sofrimento de um lado e no outro oposto a alegria/amor. E tudo é passageiro... Não há dor que perdure para sempre, tal como não há felicidade que seja eterna. Saibamos aproveitar cada instante e vivê-lo da melhor forma, sempre a aprender e a crescer, mesmo que seja através da dor.

Nada é permanente! As certezas de outrora podem hoje abalar-nos e trazer à superfície dúvidas e receios que julgávamos não existirem.

Tolice ou não, continuo a ter esperança e fé que o melhor está para chegar. É esta "confiança" que me vai ajudando a prosseguir, a reerguer após cada queda, a "cair sete vezes e levantar oito" nem que os joelhos e a alma estejam a sangrar!

Não me queria despedir sem antes partilhar este pequeno acontecimento. No meu regresso ao carro, a caminhar pelo passadiço de madeira um passarinho acompanhou-me todo o percurso. Voava por instantes, parava mais à frente enquanto eu caminhava e voltava a voar quando me aproximava. Assim esteve presente durante o meu trajecto. Sabem o que é sentir que "alguém" está junto a nós naquele instante sob a forma de um passarinho? Foi isso que senti e que me encheu o coração!

Em todas as lágrimas há uma esperança. 
(Simone de Beauvoir, A Força da Idade)

Um grande abraço para todos!
Até breve!!

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